24 Sep 2021

14. POESÍA PORTUGUESA. NUNO JÚDICE

-15 Ago 2020

 

Un poema de Nuno Júdice en portugués con traducción al inglés y al español

 

 

PREPARATIVOS DE VIAGEM

 

Ao fazer a mala, tenho de pensar em tudo o que lá

vou meter para não me esquecer de nada. Vou ao

dicionário e tiro as palavras que me servirão

de passaporte: o equador, uma linha

de horizonte, a altitude e a latitude,

um lugar de passageiro insistente. Dizem-me

que não preciso de  mais nada; mas continuo

a encher a mala. Um pôr-do-sol para que

a noite não caia tão depressa, o toque dos teus

cabelos para que a minha mão os não esqueça,

e aquele pássaro num jardim que nasceu

nas traseiras da casa, e canta sem saber

porquê. E outras coisas que poderiam

parecer inúteis, mas de que vou precisar: uma frase

indecisa a meio da noite, a constelação

dos teus olhos quando os abres, e algumas

folhas de papel onde irei escrever o que a tua ausência

me vem ditar. E se me disserem que tenho

excesso de peso, deixarei tudo isto em terra,

e ficarei só com a tua imagem, a estrela

de um sorriso triste, e o eco melancólico

de um adeus.

 

 

PREPARING FOR A JOURNEY

 

As I pack my suitcase, I have to think of all

I’ll I put in so that I forget nothing. I look

in the dictionary and take the words I’ll use

as my passport: the equator, one line

of the horizon, altitude and latitude,

an insistent passenger’s seat. I’m told

I don’t need anything else; but I keep

filling the suitcase. A sunset

so that night doesn’t fall so fast, the feel of your hair

so that my hand doesn’t forget it,

and the bird that sings not knowing why

in the back garden. And other things that may

seem useless, but which I must have: a middle

of the night indecisive sentence, the constellation

of your eyes when you open them, and some paper

where to write what your absence

will dictate. And if I’m told I’ve exceeded

the luggage weight allowance, I’ll leave it all behind,

and keep only your image, the star

of a sad smile, and the melancholy echo

of farewell.

 

 

PREPARATIVOS DE VIAJE

 

Cuando preparo la maleta, tengo que pensar en todo

lo que voy a meter para no olvidarme de nada. Voy al

diccionario y saco las palabras que me servirán

de pasaporte: el ecuador, una línea

de horizonte, la altitud y la latitud,

un asiento de pasajero perseverante. Me dicen

que no necesito nada más; pero sigo

llenando la maleta. Un poniente para que

la noche no caiga tan deprisa, el tacto de tu

pelo para que mi mano no lo olvide,

y aquel pájaro en un jardín que ha nacido

en la trasera de la casa, y canta sin saber

por qué. Y otras cosas que podrían

parecer inútiles, pero que necesitaré: una frase

indecisa en medio de la noche, la constelación

de tu ojos cuando los abres, y algunas

hojas de papel donde escribiré lo que tu ausencia

viene a dictarme. Y si me dicen que llevo

exceso de equipaje, dejaré todo esto en tierra,

y me quedaré solo con tu imagen, la estrella

de una sonrisa triste, y el eco melancólico

de un adiós.

 

Navigación sin rumbo, Trad. Luis María Marina

 

 

Selección de poemas de Nuno Júdice en portugués con traducción al inglés

 

A TERRA DO NUNCA

 

Se eu fosse para a terra do nunca,

teria tudo o que quisesse numa cama de nada:

 

os sonhos que ninguém teve quando

o sol se punha de manhã;

 

a rapariga que cantava num canteiro

de flores vivas;

 

a água que sabia a vinho na boca

de todos os bêbedos.

 

Iria de bicicleta sem ter de pedalar,

numa estrada de nuvens.

 

E quando chegasse ao céu, pisaria

as estrelas caídas num chão de nebulosas.

 

A terra do nunca é onde nunca

chegaria se eu fosse para a terra do nunca.

 

E é por isso que a apanho do chão,

e a meto em sacos de terra do nunca.

 

Um dia, quando alguém me pedir a terra do nunca,

despejarei todos os sacos à sua porta.

 

E a rapariga que cantava sairá da terra

com um canteiro de flores vivas.

 

E os bêbedos encherão os copos

com a água que sabia a vinho.

 

Na terra do nunca, com o sol a pôr-se

quando nasce o dia.

 

 

NEVERNESS

 

If I went to neverland

I’d have all I wanted on a bed of nothingness:

 

dreams nobody had when

the sun set in the morning;

 

the girl singing on layer

upon layer of living flowers;

 

water tasting like wine in every

drunkard’s mouth.

 

I’d cycle without pedalling

on a street of clouds.

 

And when I reached the sky, I’d

step on the stars scattered on nebulae.

 

Neverness is where I’d never

get to, if I were going to neverland.

 

That’s why I scoop it from the ground,

and pour it into neverness bags.

 

One day, when someone asks me for neverness,

I’ll empty all the bags on their doorstep.

 

And the girl who sang will rise from the earth

with a flowerbed of living flowers.

 

And the drunkards will fill their glasses

with the water that tasted like wine.

 

In neverland, as the sun sets

at the rising of day.

 

 

POEMA

 

As coisas mais simples, ouço-as no intervalo

do vento, quando um simples bater de chuva nos

vidros rompe o silêncio da noite, e o seu ritmo

se sobrepõe ao das palavras. Por vezes, é uma

voz cansada, que repete incansavelmente

o que a noite ensina a quem a vive; de outras

vezes, corre, apressada, atropelando sentidos

e frases como se quisesse chegar ao fim, mais

depressa do que a madrugada. São coisas simples

como a areia que se apanha, e escorre por

entre os dedos enquanto os olhos procuram

uma linha nítida no horizonte; ou são as

coisas que subitamente lembramos, quando

o sol emerge num breve rasgão de nuvem.

Estas são as coisas que passam, quando o vento

fica; e são elas que tentamos lembrar, como

se as tivéssemos ouvido, e o ruído da chuva nos

vidros não tivesse apagado a sua voz.

 

 

POEM

 

The simplest things, I hear them in the quiet

of the wind when the rain, barely

tapping on the window, disturbs the silence

at night, and its rhythm overlays the words.  Sometimes,

it is a tired voice, tirelessly repeating

its nightly teachings to whoever lives the night; at other

times, it runs, in haste, trampling over meanings

and sentences as if it wanted to reach the end, faster

than dawn.  Simple things,

like the sand we pick up and let run through

our fingers while our eyes look for

a clear line on the horizon; or things

that we suddenly remember, when

the sun spills out from the brief parting of a cloud.

These are the things that go by, while the wind

stays; the things we try to remember, as if

we’d heard them and the sound of the rain on the

window panes had not wiped away their voice.

 

 

O BANHO DE SUSANA

 

Entre ela e a água, um fio de

ouro. Depois, fecha a luz, e

o ouro passa a prata, e a prata

evapora-se em sombra. Só

ela fica, imóvel, sob o céu

onde as estrelas são olhos, e a

lua um reflexo da sua pele.

 

Mas volta a acender

a luz, como se quisesse que

a vissem. E quando se olha

ao espelho, descobre a beleza

do seu corpo que ela faz

dançar, enquanto se despe,

e todas as estrelas brilham

como olhos ansiosos de vida.

 

Então, fechando a água,

entra na banheira. E os velhos

saltam de trás das cortinas, de

dentro dos canaviais, de baixo

da relva, de cima dos dosséis,

enquanto ela, de costas para eles,

esfrega a pele com a esponja

desses olhos que a atravessam.

 

 

SUZANNA BATHING

 

A thread of gold, between her

and the water.  She turns the light out and

then the gold becomes silver, and the silver

fades away in the shadow. Alone,

she stays, still, under a sky

where the stars are eyes, and the

moon a reflection of her skin.

 

But she turns the light on

again, as if wanting to be

seen.  And as she looks

in the mirror, she discovers the beauty

of her body, making it

dance, while she undresses,

and all the stars shine

like eyes eager for life.

 

Then, turning off the water,

she steps into the tub.  And the elders

jump from behind the curtains, from

inside the reeds, from underneath

the grass, from over the canopies,

while she, her back turned to them,

rubs her skin with the sponge

of all those piercing eyes.

 

 

 

Conheci um homem fechado na sua choupana.

As traves eram de vidro. Pelas janelas entravam

os ventos de todos os pontos cardeais. A cozinha

enegrecera com o fumo de antigas refeições.

O homem limpava as paredes com os panos

da cama. As suas mãos tinham a cor da fuligem

e do pó. Pelos olhos vazios escoava-se a luz

dos séculos. Mas o homem, fechado na sua

choupana, não abria a porta a ninguém.

Podiam dizer o seu nome. Podiam pedir-lhe

que saísse,  por uma vez, e soubesse que

havia sol. Lá dentro, o homem não sabia

de nada. Esquecera-se do mundo. Fechado na

sua choupana, entre as traves de vidro e

as paredes sem tinta, o homem soletrava

o nome de deus, sem nunca chegar ao fim.

 

 

FAITH

 

I knew a man locked in his hut.

The beams were made of glass.  Through the windows,

the winds blew from every cardinal point.  The kitchen

had been darkened by the smoke of previous meals.

The man cleaned the walls with

the bed linen.  His hands were the colour of soot

and dust.  Through his empty eyes the light

of centuries was drained.  But the man, locked

in his hut, opened the door to no one.

They might call his name.  They might ask him

to come out, for once, to know

the sun.  Inside, the man knew of

nothing.   He had forgotten the world.  Locked

in his hut, among the glass beams and

the paintless walls, the man spelt

the name of god, never reaching the end.

 

 

GREVE

 

Acordar numa madrugada de sol, ouvindo

o trânsito que entra pela janela, vendo os pombos que se alinham

nos ressaltos dos prédios, descobrindo um vento que vem

do fundo das avenidas agitar o cume das copas: eis

a indústria que resta aos poetas, para que façam trabalhar

as palavras, operárias de uma transumância de imagens,

na fábrica do pensamento. Porém, o sol empurra-os para a greve,

e encostam-se aos portões do poema, vendo esvaziarem-se

de sentido os armazéns da estrofe, e alinharem-se numa desarrumação

calculada os camiões vazios da página, para deixarem passar os tubos

por onde deviam correr os versos que alimentam as linhas de montagem

paradas por falta de metafísica. Por que não pensam

nos que esperam pelas ideias que iluminam a eternidade? Por

que não se importam com a ausência de música que o seu protesto

faz ouvir? Não falam; ninguém sabe o que reivindicam. À porta

de nada, não entregam nenhum manifesto, nem sabem responder

a quem lhes pergunta o que fazem ali, ao sol do dia que nasce,

como se nunca tivessem tido outra coisa para fazer.

 

 

STRIKE

 

To wake up at sunlit dawn, listening to

the traffic coming in through the window, seeing the pigeons lining up

on the buildings parapets, discovering a wind coming

from the end of the avenue, ruffling the treetops: such is

the industry left to the poets, to make the words

work, operating the seasonal movement of images,

in the factory of thought.  However, the sun pushes them into a strike,

and they lean against the gates of the poem, they watch the stanza’s

warehouses emptying from meaning, and the lorries parked in calculated and untidy

lines on the blank page, so they can give way to the pipes

through which the verses should run, in order to feed the assembly lines

halted through the lack of metaphysics. Why don’t the poets think

about those who wait for ideas that enlighten eternity?  Why

don’t they mind about the absence of music played

by their protest? They do not speak; no one knows what they’re demanding.

At the door of nothing, they don’t deliver any manifesto, nor can they answer

whoever asks what they’re doing there, at sunrise,

as if they’d never had anything else to do.

 

 

DOMINGO EM CASA

 

Amanhã podia ser domingo, e

não haver sol; podia ouvir os sinos e

dizer que era apenas uma ilusão; podia

descer a rua e não encontrar o homem

que vende os jornais; podia chegar

ao largo e não ver as mulheres

em grupo a caminho da igreja, onde

vai começar a missa.

 

Amanhã podia não ser domingo,

e as ruas estarem vazias como se

não houvesse nada para fazer; podia não

ser domingo e todas as lojas

fecharem; podia não

ser domingo e alguém perguntar

o que é que se faz quando não

é domingo.

 

Amanhã podia ser um dia qualquer,

e não saber em que dia estou; podia

olhar para o relógio e descobrir que

os ponteiros estão parados; podia

ouvir alguém falar, e não saber de onde

vem a voz que sai da sua boca, como

se estivesse sozinho.

 

Ou então, podia abrir a porta e

ver que o domingo quer entrar; e

puxá-lo para dentro da casa, para

que lá fora fique sem domingo; e

sair para a rua num dia qualquer,

perguntando a quem passa

se viu passar o domingo.

 

De As coisas mais simples, 2006

 

 

SUNDAY AT HOME

 

Tomorrow it might be Sunday, and

the sun not shine; I could hear bells and

say this was only an illusion; I could

go down the street and not meet the man

who sells newspapers; I could reach

the square and not see the women

gathering on their way to church, where

mass is about to begin.

 

Tomorrow it might not be Sunday,

and the streets be empty as if

there were nothing else to do; it might not

be Sunday and all shops be

closed; it might not

be Sunday and someone ask

what does one do when it is not

Sunday.

 

Tomorrow might be any other day,

and I might not know which day it is; I could

look at my watch and find out that

the hands have stopped; I could

hear somebody talk, and not know where

the voice in his mouth is coming from, as if

I were alone.

 

Or, I could open the door and

find that Sunday wants to come in, and

I could pull it into the house, so that

outside is left without Sunday; and

I could go out on any day,

asking the passers by

if they’d come across Sunday.

 

 

UMA POÉTICA NO SÓTÃO

 

No meio de coisas velhas procuro o que

é novo. Em cada fim vejo um princípio;

e todos os cacos se voltam a colar,

mesmo quando faltam pedaços, ou não

se sabe a que parte pertence a outra.

 

É assim com o poema: faço-o com as

palavras velhas, as que estão cheias de

bolor, as que foram atiradas para um canto

do dicionário. Algumas, não sei o que

querem dizer; outras, disseram tantas vezes

o mesmo que já perdi o sentido do que

dizem. Mas quando as colo, no verso,

o que ouço tem sempre um outro sentido.

 

Este poema, por exemplo, não tem

nada de novo. As palavras são fáceis,

os sentidos são óbvios. E é por isso

que ando, no meio dele, à procura de

coisas novas; e ao chegar ao fim,

vejo um princípio, e sei que tudo se volta

a colar, como se nada aqui faltasse.

 

 

POETICS IN THE ATTIC

 

In the midst of old things I search for

what is new.  In each end I see a beginning;

and all the broken pieces are glued again,

even if some are missing, or nobody

knows what belongs where.

 

So it is with the poem: I build it with

old words, the stale ones

that have been thrown into a corner

of the dictionary.  Some, I don’t know what

they mean, others have so often said

the same that I’ve lost the meaning of what

they say.  But when I stick them together, in verse,

what I hear has always another meaning.

 

This poem, for example, has nothing

new.  The words are easy,

the meanings are obvious.  That is why

I wander, inside it, looking for

new things; and when I reach the end,

I see a beginning, and I know that all will again

be glued together, as nothing was missing.

 

 

AXIOMA POÉTICO

 

Há duas hipóteses de sentido para

além da que o poema indica: a primeira,

diz respeito ao que eu sinto;

a segunda, ao que eu penso do que

sinto. Mas a outra hipótese, a que

não está na primeira nem na segunda

possibilidade, é a que fala do que

eu penso do que sinto e, por outro

lado, do que eu sinto do que penso. Se

não sei, ao certo, qual delas é mais certa,

é porque aquilo que é mais certo é

o incerto, e quanto mais incerto mais

o sinto como certo. Chego, por isso,

a uma conclusão: a terceira hipótese

decorre das duas primeiras, e o que

penso faz-me sentir que só sinto

porque penso, embora também

pudesse pensar que só o sinto por

não haver sentido sem sentimento.

 

 

POETIC AXIOM

 

There are two hypotheses of meaning beyond

the one shown by the poem: the first one

is concerned with what I feel;

the second with what I think about

what I feel.  But the other hypothesis, the one

which is not in the first nor in the second

possibility, is the one that speaks about

what I think about what I feel and, on the other

hand, what I feel about what I think.  If

I don’t know with certainty, which one is most certain,

it’s because what is most certain is

the uncertain, and the more uncertain, the more

I feel it as certain.  I, therefore, reach

a conclusion: the third hypothesis

derives from the first two, and what

I think makes me feel that I only feel

because I think, although I could

also think that I only feel it

because there is no meaning without feeling.

 

in The simplest things, 2006

 

 

ODE MARÍTIMA COM TERRA À VISTA

 

Um mar encheu e esvaziou-se, esta

noite. Não foi uma maré prevista; não foi

um engano da lua. Um mar subiu quando

o chamei, e desceu quando não

lhe abri a porta. Vi-o rebentar

as ondas contra a fechadura,

como se quisesse rodar a chave

com a espuma. Mandei-o embora, disse-lhe

que me tinha enganado quando

o chamei; e ele fazia levantar as gaivotas

de todos os seus rochedos, e obrigava-as

a voar em roda do patamar, para que as suas asas

batessem nas paredes. Pedi-lhe que me

deixasse; e ele obrigava o vento a soprar,

para que o seu sopro entrasse pelas

frinchas da porta, e impregnasse de maresia

toda a casa. Falei-lhe do horizonte,

para que me deixasse; e ele

empurrava barcos contra as janelas,

como se isso me levasse atrás

das suas velas. Tranquei todas as portas da casa;

desci os estores; apaguei as luzes. O mar

acalmou, por fim. Ouvi-o descer

as escadas, e deixar um areal

na rua da frente. De manhã, quando

saí de casa, as gaivotas dormiam; não

se ouvia nenhum vento; os barcos

naufragados estendiam-se pela rua;

o sol secava a espuma ao longo

dos prédios. Enterrei os pés na areia,

como se estivesse na praia, e

atravessei a rua como se entrasse

no mar.

 

 

MARITIME ODE WITH LAND IN SIGHT

 

A sea has come in and gone out,

tonight.  It was not a foreseen tide; it was not

due to a faulty moon.  The sea came in when

I called it and went back when I didn’t

open the door.  I saw its waves

rolling against the lock,

as if it wanted to turn the key

with its foam.  I sent it back, I said

I had made a mistake when

I called it; and it forced the seagulls

to fly around the landing, bashing

their wings against the walls.  I asked

to be left alone; and it forced the wind to blow

and flow through the door cracks, spreading

the emptied sea smell through

the whole house.  I spoke of the horizon,

so that the sea would let go of me; and it

pushed boats against the windows,

as if that would make me follow

their sails.  I locked all the doors of the house;

I lowered the blinds; I turned off the lights.  The sea

calmed down, at last.  I heard it go down

the stairs and leave a sandy beach

on the street, opposite.  In the morning, when

I left the house, the seagulls slept; there was no

wind;  shipwrecked

boats were spread along the street;

the sun dried the foam on

the buildings.  I buried my feet in the sand,

as if I were on the beach, and

I crossed the road as if entering

the sea.

 

 

A DEUSA DO AMOR

 

Num quarto branco, a mulher que se despe

tem a luz do candeeiro. Os seus olhos

são os focos que iluminam o gesso do tecto; e das suas

mãos sai a luz que se derrama pelas

paredes, como se fossem as nascentes

de um rio que atravessa o vale dos ombros,

passa o desfiladeiro dos seios e se espraia

pela planície do ventre, até ao oceano

do sexo. E se a mulher fechar os olhos,

enquanto espera que a maré do acaso

volte a subir, um temporal de fogo

percorre o vidro das janelas. O relâmpago

pinta de um vermelho de nuvem

os seus lábios; e as ondas da noite sobem

até à ponta dos seios, desmanchando

os cabelos presos numa vegetação

de dunas. Então, a mulher nua

volta a abrir os olhos; e o vento que entra

pela janela percorre-a com as suas mãos

de nortada, e possui o seu corpo

até o deixar seco na branca exaustão

da sua nudez.

 

 

THE GODDESS OF LOVE

 

Inside a white room, the woman, undressing,

lights up like a lamp.  Her eyes

are the spotlights illumining the plaster of the ceiling; and out

of her hands come the beams of light that spill over

the walls, like the sources

of a river that flows across her shoulders,

through the gorge between her breasts, and floods

the planes of her belly, down to the ocean

of her sex.  And if the woman closes her eyes,

while waiting for the tide of chance

to come in again, a storm of fire

traverses the window panes.  The lightening

paints her lips in a red of cloud; and the night waves

climb up to the tips of her breasts, loosening

her hair in waves of sandy

dunes.  Then, the naked woman

re-opens her eyes; and the wind coming

through the window feels her with its

northern breath, and possesses her body

until it is left dry in the white exhaustion

of its nudity.

 

 

ANÁLISE DE UM EPISÓDIO DO TEATRO DE SHAKESPEARE

 

Nunca percebi bem a história da floresta que

andava atrás da lady macbeth. Se a lady macbeth

era feia como os trovões, o que é que a floresta

lhe queria fazer para andar atrás dela? As florestas

costumam andar atrás de belas ninfas, e

quando as apanham enrolam à sua volta os

troncos das árvores, cobrem-lhes de folhas

os cabelos e escondem os seus púbis sob

as grandes flores ainda húmidas do orvalho.

 

Lady macbeth, porém, corre mais depressa

do que a floresta e sacode as mãos manchadas

de sangue para ver se as limpa com a névoa

húmida do Outono. Se a floresta a apanha,

rasgará o tecido que lhe cobre os seios e a

lady macbeth deitar-se-á na erva, e tentará

esconder os mamilos sob ramos de urtigas e

de azedas, ficando com os seios amarelos

à espera que o sol a liberte da sombra da floresta.

 

E ao correr à frente da floresta, a lady macbeth

vai tirando de cima do seu corpo os tecidos

que o escondem, e corre cada vez mais depressa

até ao cimo do monte onde a floresta já não vai poder

chegar porque é um monte seco e rochoso, e

as raízes da floresta não têm por onde crescer

em busca de água para alimentar os troncos. Nua,

no cume, lady macbeth agita os cabelos para

afastar as nuvens e os abutres; e o sangue corre-lhe

das mãos para as pedras, como se ela fosse uma fonte.

 

E todos os dias, ao fim da tarde, o sol bebe o sangue

das mãos de lady macbeth, e deita-o sobre a floresta

que ficou imóvel, ao pé do monte, e seduz lady

macbeth com os seus troncos cobertos de folhas vermelhas.

 

 

COMMENTARY ON AN EPISODE OF A SHAKESPEARE PLAY

 

I never quite understood the story of the forest

chasing lady macbeth. Since lady Macbeth

was terribly ugly, what was the forest

trying to do by chasing her? Forests

usually chase beautiful nymphs, and

when they catch them, twist the tree branches

around them, cover their hair with leaves and

hide their pubis with dew-moist large flowers.

 

Lady macbeth however runs faster

than the forest and shakes her blood stained

hands trying to wash it off with the humid

autumn mist. If the forest catches her,

it will tear apart the cloth that covers her breasts

and lady Macbeth will have to lie on the ground trying

to hide her nipples with nettles and sour

grass, which will make her breasts yellow,

and wait for the sun to release her from the forest shadows.

 

As she runs ahead of the forest, lady Macbeth

sheds, one by one, the robes

that conceal her body and runs faster and faster

to the top of the hill which the forest cannot

reach because it is dry and rocky

and the tree roots cannot spread

since there’s no water to feed its trunks. Naked

on the hilltop, lady Macbeth shakes her hair

to dispel clouds and vultures – and blood drips

from her hands on to the stones, as if she were a spring.

 

And every day, as it goes down, the sun drinks the blood

from lady macbeth’s hands to spill it over the forest

at the foot of the hill, and the forest can thus seduce lady

Macbeth with its trunks covered in red leaves.

 

trad. Ana Hudson

 

 

Nuno Júdice. Nació en Algarve, Portugal, en 1949. Realizó estudios de Filología románica. Fue el primer poeta portugués editado en Francia por la prestigiosa editorial Gallimard. Es crítico literario, profesor de Literatura Comparada en la Universidad de Lisboa y agregado cultural de la embajada portuguesa en Francia. Dirige, además, la Casa de Poesía de Fernando Pessoa. Es considerado uno de los más importantes poetas portugueses surgidos a continuación del grupo Poesía 61.  Autor de varios volúmenes de poesía. Obtuvo el Premio Iberoamericano de Poesía Reina Sofía en 2013.

 



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